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  • Kin Aguiar

Quando parece que o divã tem espinhos

É quando se sabe que estamos no lugar certo.


Às vezes o divã parece que tem espinho porque nem sempre a análise são flores. Aliás, digo que análise acontece muito mais num campo espinhoso do que num vale florido. A graça é que a gente começa a se apaixonar por esse processo de atravessar os nossos campos espinhosos.


A gente sente quando precisar tocar naquele ponto. Vem aquele gosto na boca, de quando sabemos que vamos provar alguma coisa amarga, que não desce muito bem e que a gente não entende. A gente sabe, ou acha que sabe, sente e vê, parece que até identifica :“é aquela coisinha, aquele ponto, aquela porta que tá lá longe e que preciso abrir”. É uma coisinha enorme que faz diferença na vida da gente.

Vamos pra sessão, tentamos mexer nisso, chegar perto, mas a gente dá de cara com a parede - literalmente. A palavra não dá conta!


A associação falha, esmaece; o discurso se desalinha e a voz emudece.


“Parece que tem uma pedra na minha boca”, disse para a analista. “Então está no lugar certo” ela devolve. Lugar certo, sim: nesse divã que não abraça e nessa psicanálise que permite criar uma nova gramática pra vida.


Quando a palavra não dá conta, ou melhor, quando nós ainda não conseguimos dar conta disso com a palavra, é que o divã machuca, que apunhala, que remexe nas estranhas. Deixa de ser um móvel bonito e anatômico e passa a ser um monstro engolidor. Fica desconfortável e visceral.


Bom sinal! Há que se desconfiar de divãs que permanecem confortáveis por muito tempo. Divãs que não engolem talvez não sejam bons divãs.


Pouco importa, aliás, se divã ou poltrona. E em tempos pandêmicos, se consultório, sofá, quarto ou carro. Pouco importa porque esses espinhos estão todos, na verdade, na ponta da língua.


Vamos ficar por aqui.


Kin Aguiar


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