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  • Kin Aguiar

Num só depois


Os significantes exigem tempo e espera para que possam decantar. E mais tempo ainda para que possam se encadear.


Por isso mesmo, boa parte dos efeitos de uma análise acontecem nesse lugar: num só depois. Na análise, a gente se deforma aos poucos, como se fosse se derretendo bem devagar.


Se o discurso é sempre bagunçado, meio oblíquo, se camufla ou dissimula, é nesta bagunça que a análise vai ocorrer: na bagunça da fala e por meio dela . E arrumar uma boa bagunça, bem sabemos, leva tempo. Se a bagunça somos nós mesmos, mais tempo ainda.


É confusão, tropeço e lacuna para que, num só depois, algo possa se construir, uma questão se desenhar e aquilo que antes parecia embaçado começar a tomar contorno.


É assim que a gente vai se apropriando da nossa história, da nossa posição de analisandos, da nossa palavra.


A análise é torta. Torta e tortuosa. Tudo que é reto, que segue uma linha, que é muito bem amarrado, que está concatenado e encenado, uma hora vai desmanchar. E precisa! Para que se junte, de novo, de outro jeito, num só depois.


É como se a precisássemos parar de caminhar por uma estrada, pegar um atalho, visitar outros lugares, para então poder voltar àquela estrada e continuar o percurso para onde teríamos de chegar, enfim. Se é que tem uma chegada. Se é que tem um fim.


Vamos ficar por aqui.

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