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  • Kin Aguiar

Da análise, seus silêncios, e a palavra.

Num tempo em que muito se diz, muito se ouve, a todo o tempo e todo lugar, a psicanálise oferece uma outra experiência aos ouvidos. Quando se diz que o diálogo é chave pra tudo, o silêncio, aqui, fala que também sabe abrir portas. Não há discurso estabelecido, não se ouve sempre o que se quer ouvir ou o que se espera ouvir. Aquele discurso bem estruturado pela voz do coletivo, quando entra pela porta do consultório, começa a se dissipar.


O silêncio é nascedouro da palavra. O silêncio gesta a palavra, alimenta, dá seu corpo. Até que ela veja a luz, se incorpore na voz e pulse na ponta da língua, a palavra é silêncio. Antes de ser onda sonora, a palavra é quietude.


Escolher palavra é como picotar de uma revista pedacinhos e fazer uma colagem. A revista é isso tudo que está na gente, pra gente, um pouco escondido, avesso e travesso, mas está lá. A gente picota, faz dela pedacinho e rearranja. É isso a análise, essa colagem rearranjada: um novo discurso, um novo caminho, uma nova forma de contar e falar da nossa experiência no mundo e com o outro.


Colagens difíceis como essa pedem um espacinho que pode sustentar um certo silêncio. Não é um silêncio desinteressado, desleixado, relaxado. Pelo contrário, é silêncio necessário. É silêncio que põe a fazer, associar, enfrentar. O silêncio da análise não é silêncio de abandono. É silêncio de quem tá perto - a gente sente quando o silêncio do analista parece estar falando “vá, fale.. você sabe, só não sabe que sabe”.


É dessa colagem, desses recortes, dos pedaços que sabemos “sem-saber” que a análise se faz. Quem sabe não sejamos nós, então, analisandos e pacientes, artistas da nossa própria experiência, cuja obra é construída em meio a silêncio, palavra, silêncio e mais palavra, ainda.


Vamos ficar por aqui.


Kin Aguiar


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