Buscar
  • Kin Aguiar

Contadora de histórias




Casa é parede, teto e chão com a linha-do-tempo do nosso tempo. Cada canto tem um tanto do dna que nos dá cara, tom de voz, jeito de ser. É como um mosaico, cheio de pedacinhos de coisas de todas as partes e de todas as cores e de todas as pessoas que já fomos e das pessoas com quem já vivemos.


A casa conta história. Talvez seja isso uma casa, uma contadora de histórias.


Procurei passar os dias de meu aniversario em casa. Ou no lugar que mais tem gosto e cheiro e ares de casa pra mim. O que quis com isso não sei bem. A palavra reaproximação parece caber aqui. Talvez achar algum pedacinho, uma lembrança num canto, guardada numa gaveta. Talvez eu tenha esquecido ou deixado algo quando saído de casa e agora, tarde demais, dê por falta. Mas parece que esse algo seja o tipo de coisa feito para não ser achado. É objeto feito de nada, como nuvens: a gente vislumbra, mas não pega.Pelo menos não aqui, nestas gavetas que conheço tão bem e que guardaram minhas bagunças e meu caos por tanto tempo. E mesmo que a casa esteja lá, ela não está lá mais como uma vez já estivera. A casa muda quando a gente vai embora. Como se ficasse magoada com a gente, ela se recupera, muda, se torna outra.


Mas ela ainda é contadora de histórias, não as abandona. Talvez tenha sido nos braços dessas histórias que tenha procurado um aconchego. Nesse movimento incessante de viver e ir à frente, sem nem saber às vezes o que há à frente, ter a voz conhecida dessa velha senhora contando, narrando e me lembrando o que a força do tempo faz esquecer é como ter assegurado um pedaço-unidade que não se esvai e não vira poeira.


Kin Aguiar


Nesta foto, um ensaio de Joan Didion que li hoje e que conversou muitíssimo comigo. O livro é "Rastejando até Belém".

3 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo