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  • Kin Aguiar

ANO DE RETALHOS



Penso que 2020 foi um ano de retalhos. Ano de um ator que invade a cena, que muda a ordem do roteiro, troca a música da trilha sonora, tira todos de seus de lugar.


2020 derruba planos, metas, viagens, formaturas. Tirou trabalho, convivência, toque. Tirou gente da gente: seja pela morte, seja pelo afastamento.


O vírus ataca o corpo, a carne, mas também nossa fantasia. Ataca tudo aquilo que empreendemos para darmos consistência imaginária a nossa vida, a nosso eu. Isso pode ser aterrorizador ou uma oportunidade interessante pra convocar a fabricar com a vida e com a criatividade.


Depende do hospedeiro, do corpo que o vírus toca.


É aquilo que a gente fala muito na psicanálise, o saber-fazer-com. Mas se não deu pra fazer-muito-com, tudo bem também. Isso não pode ser um imperativo. Há que se fazer o que dá, o que já é bastante.


Não dá pra dar um tempo desse tempo. Ele está aí, nos embalando e nos circulando. Está nos convocando e está fazendo cair muita coisa.


Espero que não tenha caído tudo o que é precioso pra vocês.


Desejo que vocês também tenham podido deixar cair alguma coisa, porque é preciso.


E desejo, também, que tenham catado algumas dessas coisas que tenham caído pelo chão e conseguido trazer pra perto de novo.


Que com todos esses retalhos dos quais foi feito 2020, possamos costurar algo interessante para este novo tempo cronológico que 2021 marca.


Vamos ficar por aqui.


Kin Aguiar

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