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  • Kin Aguiar

Amamos quem nos incompleta

Não há correspondência quando o assunto é amor.


O amor é da ordem do engano. Esse outro a quem amamos é uma miragem, é pura especulação. É alguém por nós construído pra dar conta de uma falta insana dentro da gente, falta essa que a gente tenta suturar com um laço amoroso.


Mas isso não é novidade e está para todos nós. Lançamos mão do encontro amoroso para fazer sentido frente à vida, ao dia-a-dia, à dor de existir, ao real, que tema em insistir. A questão é manter um movimento que exige em fazer com que o outro corresponda àquilo que nem ele mesmo sabe que esperamos.


Amar é poder consentir em estar com o outro para além da nossa fantasia. O amor está para o rasgo e para o remendo, e não pra uma colagem perfeita que não deixa falhas, espaços e borrões.


Pôr-se assim no laço amoroso é justamente obstruí-lo, é colocar uma pá de areia na graça do amor: a graça do encontro e do desencontro; do desajuste e do ajustar.


Amar é fazer uma costura com o outro que não o aniquile, que não retire dele sua singularidade para que ele, forçosamente, funcione conforme nossa fantasia.


Amar é perder narcisismo. É preciso consentir em perder algo pra dar espaço ao amor.


Amar quem nos deixa incompletos é justamente o que possibilita que nosso desejo continue sendo relançado, atualizado. É o que nos coloca em movimento e o que faz as engrenagens funcionarem.


Amor fechado, completo, redondinho, perfeito, sem briga, sem bad, sem raiva e sem rancor não existe. Amor em que se tem certeza demais também não.


O amor é dúvida! Mas é uma dúvida pra qual a gente escolhe dizer sim, apesar dos pesares. E há muitos apesares quando se trata de amar.


Vamos ficar por aqui.


Kin Aguiar




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